Recalculando a rota

Mudanças vêm em nossas vidas, o tempo todo, e temos a necessidade de organizá-la novamente, reorganizar, e nesse processo nos desorganizamos um pouco, um processo às vezes trabalhoso, sombrio, mas que logo dá frutos. Construir, reconstruir, desfrutar. Nesse processo olhamos para nosso passado, vemos quem fomos e pensamos em quem queremos nos tornar. Escolhemos com base nas necessidades básicas, mas também naquele luxo onde podemos ser diferente, único, artista, mágico. Pincelamos a vida com nossa cor transbordante, colorimos os céus e as estrelas, deixamos nossa marca, assim como fizeram nossos antepassados históricos, pré-históricos, antropológicos, arqueológicos. Ao viver e interagir com esse mundo, alterando sua fisiologia terrestre desde a primeira respiração, temos a oportunidade de nos conectar com algo profundo, mais profundo, que habita os oceanos, os buracos negros, as supernovas, a respiração consciente e o pensamento pulsante. Porque a vida pulsa, quente, vulcânica. Em uma ontologia naturalista descobrimos que a vida é isso, natureza, desvendada e misteriosa, nua e vestida em véus dourados, com um perfume que inebria até os seres mais inertes. E claro, nós, somos parte da natureza. Vivendo, alterando, construindo, reformando, nessa majestosa experiência infinita. Porque no tempo sagrado, Cronos morre dando lugar ao atemporal. Porque apesar de finita, ela se renova e se transforma, deixa descendentes, onde nós, na busca determinada de alcançar a vida ad aeternum vamos colonizando os planetas do sistema solar e quem sabe, além. Vamos avançando na saúde, aumentando as décadas da idade e reduzindo a mortalidade. Com nossas obras pessoais e coletivas, nossa reconstrução ganha cor, misturada às de tantos, impregnada no mundo e nas relações. E enquanto estamos por aqui, que façamos o melhor, que vivamos o melhor. Que seja arte, poesia, progresso, evolução, aventura.

Por uma vida social organizada, nutrida e abundante

A vida na cidade é agitada, muitas vezes conturbada e caótica, consumista e líquida. Podemos nos sentir perdidos em um ambiente assim, principalmente quando não nos vinculamos a grupos religiosos, desportivos, de estudo, trabalho, lazer ou família. Eles funcionam como redes de apoio social, e nos ajudam fornecendo estrutura e organização. Mas se algo ainda parecer faltar, algo que os grupos não podem oferecer, ou por simples curiosidade, podemos partir na jornada de procurar fora, em outros espaços, outras formas de organizar a vida e as relações. À medida que vamos descobrindo, percebemos quão pequeno éramos, e quão majestosa é a diversidade da vida. A curiosidade cresce e vamos moldando, construindo, lapidando uma forma nossa de existir.

Algumas perguntas para nos ajudar na compreensão das necessidades sociais, organização, planejamento, e aprimoramento:

Qual é a minha necessidade de contato social?

Quais dias da semana sinto mais falta de uma boa companhia?

Quais culturas / lugares me sinto pertencendo, conectado, em comunhão?

Quais pessoas considero meus amigos, e quais são os mais próximos e mais distantes?

O que tenho feito para manter contato com eles? E mais além, o que tenho feito para agregar valor à vida deles?

Tenho conseguido aprofundar as relações em uma intimidade respeitosa?

Tenho conseguido manter a ética em minhas relações? Ou já vi a falta desta deteriorá-las?

O que tenho feito para aumentar meu valor pessoal e me tornar mais atraente e amigável?

Estou compartilhando meus sonhos pessoais com meus amigos? Ou simplesmente participando da vida deles?

E vamos vivendo, cada vez melhor.

Viva à vida!

Ode ao Chaos

Ó benevolente Caos, de onde vieste?

Entidade esta presente no primórdio e no fim

De onde toda ordem surge, para onde toda vida flui

Não vieste me infligir dano, mas propor fusão, cooperação

Neste diálogo trouxeste frutos, ricos, saborosos,

Fragmentados, como já esperava que fossem

Partes destas juntam-se às minhas, e às suas,

E às de todos com quem diretamente ou indiretamente interajam,

Caoticamente, imprevisivelmente, gerando resultados igualmente fugidios.

Ele nos revela as coisas em sua natureza última, definitiva e temporária. Conselheiro fiel na vida do artista, entidade negligenciada na vida cotidiana, como se pudéssemos escapar de sua influência oras doce, oras amarga. Venerado como Obra no Tempo de Deus, amaldiçoado como por lampejos infernais.

A ordem das coisas existe, é verdade, e é importante! Mas é o caos quem a organiza, reorganiza, desorganiza, e depois, quem sabe? Vamos vivendo tentando encontrar ordem no Caos, aproveitando seus doces frutos fragmentados, descartando os amargos. Em última instância temos escolha de cocriar nossa pequena realidade, de forma coletiva, pois ninguém está só neste mundo. E em nos conectarmos, nos abrimos para essa unidade caótica. Que seja bela!

Full Color

Paixão leve e permanente. Viver apaixonado pela vida, em estado de êxtase. Para isso é preciso cultivar o prazer, adentrar o novo, sentir romper as próprias barreiras e descobrir um novo EU, em direção à mudança, à transformação, à vida. Em equilíbrio com a estabilidade, ultrapassando a dualidade, e encontrando o Uno. Nesse ponto o pensamento não tem lógica ou sentido, somente sentimento. É infinitamente limitado tentar se expressar por palavras. Como expressar a audição em palavras? O cantar dos grilos ou o latir do cão? Limitado! Como é possível ver pela escrita? Impossível, a menos que muito limitado ou diferente da realidade. Sentir o toque de uma mão suave pela escrita? Impossível. Sentir o gosto da macarronada da vovó pela escrita? Impossível. Só é possível sentir e viver o mundo tocando a realidade da forma mais nua e crua possível. E escolhendo qual parte da realidade tocar. Os espinhos ou as flores das árvores? É possível plantar árvores sem espinho, mas até os espinhos são belos, pois são reais.

A Imprevisibilidade do Real

Mais uma vez aconteceu. Estava decepcionado com determinada experiência e disposto a abrir mão dela. E assim o fiz, mas não abandonei, e dei a chance de mais uma convivência. Sem esperança fui, e me surpreendi. Não porque algo havia acontecido diferente do usual, mas o que estava diferente era eu, a minha postura frente à experiência. Quando toda a esperança de concretizar minha idealização pessoal esvaneceu, me abri para o novo, para como a experiência estava acontecendo de fato, aceitei sem querer mudar, e posso dizer que quem terminou modificado fui eu,  agora algo mais fazia parte, aceitei, incorporei, me adaptei. A experiência que achava que tinha perdido de vez, ganhei, pelo simples fato de não querer ter ganho, de não mais ter desejado, idealizado. É muito interessante como nos prendemos a ideias do passado, e queremos revivê-la exatamente como foi, pois afinal foi bom, como não querer repetir? E tentamos repetir, mas descobrimos que não conseguimos, sempre acontece diferente, e está tudo bem, o diferente também pode ser bom.

Subjetividade Atemporal

Trovões! Céu tempestuoso. Chuva. Noite. Vento soprando forte. Som dos carros ao fundo. Cidade cinzenta. Um homem anda pela calçada da avenida sem ligar para as gotas que batem em seu corpo. Clarões aparecem e vão deixando apenas um som a rasgar o ar. Um cachorro late ao longe. Com a mão põe o cabelo molhado para trás e passa pelo rosto coçando sua curta barba mal feita. Espera o sinal ficar vermelho e atravessa uma grande avenida. Uma rajada de vento passa mudando o curso da chuva. O asfalto preto refletia as cores dos poucos carros que passavam. Caminhando para o nada o homem para. Um raio atinge um dos prédios ao redor. Um clarão ilumina tudo. Depois um trovão ensurdecedor. Depois preto. Ele não tinha nada a fazer nem aonde ir. Fecha os olhos e baixa a cabeça. Por uns instantes levita, seus pensamentos aceleram e ele vira éter, pensamento, pura linguagem deixando sua roupa cair na calçada da grande avenida. Súbita anestesia. Perda de sentidos. Morte temporária. Atravessando o infinito e o universo chega a um lugar onde não existe nada. Sua percepção é inválida. Suas emoções e pensamentos são abstratos. “Onde estou?” Pensa sem conseguir distinguir o interno ou o externo apenas tendo a impressão de sentir uma vibração grave que vinha de sua voz. O verde e o preto se fundem trazendo uma cor viva e mórbida. Quando o cheiro do vazio alcança o inatingível ser, um prazer penetra sublime sua alma. Um calor sutil aquece as entrelinhas de sua linguagem transformando os verbos mais ásperos em adjetivos coloridos. Um breve momento atemporal se passa. Fome e sede rasgam sua subjetividade trazendo-o de volta à realidade. Gotas de chuva são sentidas em seu corpo. A umidade lhe cobre com um manto denso. Outro latido de cão aparece ao fundo. Ele abre os olhos. Um carro cor grafite para ao seu lado. Ele levanta a cabeça. O sinal está vermelho. O homem volta a andar por aquela avenida larga atravessando a penumbra daquela cidade cinza. Continua andando, Rumo ao nada.

Escrito há 10 anos, em novembro de 2008. Sempre tive vontade de publicar esse texto. Feito.

Eterna Transformação

Me acho tão limitado tentando por em palavras quem sou e quem serei. Porque estou sempre mudando de opinião acerca de quem sou e de quem serei, como se partes dentro de mim morressem constantemente e outras começassem a existir. Às vezes me sinto sem chão, porque os pilares que escolhi me agarrar estão mudando constantemente, contra minha vontade, e ao mesmo tempo como sendo a única alternativa para manter viva a minha vontade. Antes de morrer, tragado pela mesmice da previsibilidade a qual tudo aponta, eu desponto, saio da rota e do foco, para me perder no vazio do infinito. Nunca sei quanto tempo vai durar, para onde vou, e para onde vai me levar. Dessa forma vou encontrando vida, sendo puxado pelo campo gravitacional do carinho e do afeto verdadeiro, aquele que não te obriga nem te impõe, mas está ali para compartilhar, simplesmente. Como é boa essa sensação, que por vezes transborda florescendo todos os poros entupidos, como um rio que flui, ou como o sol que aquece a pele. A bússola do sentimento volta a pulsar, irrigada de sangue, e novamente sei para qual caminho devo ir, e mais importante que isso, posso retribuir. Vida é fluxo e refluxo, movimento, transformação.

Sentido da vida

FOGUEIRA-CIGANAQual o sentido da vida? Porque estamos vivos? Para que/quem vivemos? O que nos motiva a continuar vivos? Nos motiva para depois o que? Existem momentos em que não sabemos mais o que é sentir, ficamos anestesiados, apáticos, sem ação, somente uma reação insensível. … Talvez seja isso mesmo, que tudo se trate de emoções, não se impota onde se está,com quem se está ou fazendo o que, importa é como se está. Não importa se você é escravo de um governo, de um senhor feudal, marido ou religião, importa é como você se sente. Sente-se protegido ou acorrentado? O escravo feliz existe, e é mais comum do que se pensa. Todos nós somos escravos de alguma coisa, principalmente das coisas que não nos fazem sentir como escravos. E a questão é justamente essa: como você se sente? Se aprofundarmos um pouco o nível da análise, veremos que os sentimentos não são estáveis, mas voláteis, instáveis, e parecem se alterar a cada dia e situação. Perceber como nos sentimos é como olhar para uma fogueira, horas ela está com o fogo alto, horas baixo, e quando percebemos podemos tentar regular esse fogo para a intensidade que quisermos. Você gosta de viver em baixa ou alta voltagem? Concluindo o raciocínio, viver com qualidade, viver se sentindo bem, não diz respeito ao que se faz, mas como se sente em relação ao que se faz. É saber manter a chama interior, o fogo sagrado sempre aceso.

Que bicho é esse? // Who’s this?

Um dragão vive dentro de mim, e ele quer sair! Quer pegar fogo! Sabe qual o seu nome? Coragem! Sabe como vou conseguir isso? Expressando meus sentimentos, extravasando ou simplesmente sendo. Me sinto preso em uma gaiola, e tudo bem, posso até ficar, portanto que frequentemente saia para dar um voo, e volte. Sinto exatamente essa experiência de voo quando vou a uma festa, como se saísse de meu lar confortável e seguro e adentrasse na selva do mundo, imprevisível, selvagem. Esse ser selvagem que existe em meu peito precisa sair para se alimentar de vez em quando. É ele que me dá vida, é através dele que sinto o mundo. A vergonha, a culpa, o medo, as regras, as leis barram esse animal. Ele é tão forte, poderoso, vivo, com um potencial para construir e destruir, que muitas pessoas o temem, se assustam quando brevemente o veem, e preferem viver guiadas pela culpa, medo e vergonha. Mas nós podemos dar vazão no sexo, na dança, na arte. Você não se sente julgado, observado, e mesmo que sinta, não importa mais. É como estar à beira de um precipício, e não ter medo de voar. Como olhar nos olhos, e não ter medo de amar. É como se vivêssemos a vida sem participar dela, e naquele momento déssemos o primeiro passo.


Who’s This?

Continue reading “Que bicho é esse? // Who’s this?”

Entre asas e raízes // Between wings and roots

galho-de-arvore-passaro-pardal_121-9950

Estava relendo os meus escritos e não encontrei nenhum que poderia publicar, então resolvi escrever um novo. É engraçado como na vida nós mudamos constantemente e ficamos a pensar, o que realmente importa? Uma pergunta difícil em tempos de mudança. Algo que pode dar uma luz é nos perguntar: como nos sentimos em relação ao que nos cerca? Pessoas, ambientes, grupos, animais, plantas, ar. É muito bom estar com um amigo ou um grupo de pessoas que compartilha de nossas mesmas ideias, assim como é bom de vez em quando se permear em grupos diversos para ampliar nossa visão de mundo e amadurecer nossos próprios valores. Aprender por instrução é uma coisa, mas aprender pela experiência é outra. Quando convivemos com diferentes grupos e enxergamos com suas diversas lentes, passamos a ver algo que é comum a todos eles, na verdade algo que está além de qualquer comparação. É a experiência singular de cada vivência. Como nos sentimos. Repetidas por diversas vezes. Uma experiência com uma tonalidade rosa, a segunda verde, a terceira mais clara, outra mais sombria, uma extremamente doce, outra áspera e forte, outra infinita, outra fugaz.. Quando chegamos nesse ponto, percebemos como as experiências são inumeráveis, e ficamos um pouco perdidos com isso. As vezes se perder é necessário. E tão bom quanto é ter um porto seguro, onde não importa onde tenha estado ou o que tenha vivido, vai estar lá para lhe acolher e amar. Entre asas e raízes tentamos viver, mantendo o equilíbrio, na presença de quem se gosta.


Between wings and roots

Continue reading “Entre asas e raízes // Between wings and roots”